Ofício de Escritor:

dialética da literatura

Nelson Werneck Sodré


SODRÉ, Nelson Werneck
Coleção: , nº 84
Categoria: Letras
Prateleira:
Editora: Civilização Brasileira
Cidade: Rio de Janeiro
Formato: Brochura
Edição:
Nº de páginas: 154
Idioma: Português
Ano: 1965

O ofício da verdade

Ofício? O vocábulo envolve, certamente, uma predisposição individual, mas também uma obrigação livremente assumida e executada, em consonância com as possibilidades de cada oficial. Dizia-se, antigamente, missão, e não faltaram retóricos para dizer sacerdócio. Imaginava-se o escritor como uma espécie de mensageiro divino, portador de um dom excepcional que o distinguia dos seus semelhantes, e o recado que trazia era a busca sempiterna da perfeição e da beleza. Como, de tão alcandorada posição, caímos até o ofício? Não estará a era moderna exagerando na sua revisão de conceitos, ao nivelar o homem de letras ao alfaiate, ao sapateiro, ao ourives?

Este pequeno grande livro de Nelson Werneck Sodré ilumina todo o problema.

Que é um escritor? Não um missionário, não um sacerdote, mas uma testemunha, sem dúvida preciosa, até mesmo insubstituível, do espetáculo da vida e, mais particularmente, da sociedade humana – uma testemunha nos dois sentidos que tem a palavra, quer como espectador ou circunstante, quer como depoente. Da primeira condição participam todos os vivos, mas a vida em sociedade, e em especial na sociedade do nosso tempo, tende a simplificar o secundário e a obscurecer e dificultar o essencial. O escritor capta e transpõe a realidade – e o que o singulariza é a capacidade de generalizar, de colher a imagem e a essência do real, de tipificar situações (e, secundariamente, personagens). O ato criação literária constitui assim, uma restituição, de grandeza dependente da profundidade e da riqueza e, em suma, da intimidade, das suas relações com o real.

O escritor busca, não a perfeição ou a beleza, mas a verdade, O processo de interpretação da realidade, anterior à sua transposição na obra de arte, pode ou não ser consciente – nem mesmo a posição militante do escritor empobrece a sua experiência ou limita a sua capacidade criadora – mas precisa ser honesto para ser autêntico. Outrora, a verdade era uma só, a verdade das camadas detentoras do Poder, erigida em verdade única e absoluta. Mas há muitos anos que as nuvens de morte se acumulam ameaçadoramente sobre as velhas estruturas sociais e que, por outro lado, a ascensão das massas prenuncia novas auroras. E, assim, presenciamos, nos nossos dias, o mais terrível dos conflitos entre o novo e o velho, entre o que nasce e o que está fadado a perecer.

Homem da sua sociedade e da sua classe, homem público cm perpétuo diálogo com o povo, o escritor toma parte ativa nesse conflito. Aquele que se agarra ao passado apura a linguagem, seu instrumento de trabalho, até o virtuosismo; ou reduz o dom com que o brindou a natureza até a delicia de alguns poucos, os eleitos; ou se consome na solidão e no desespero. Tudo isto configura o seu antagonismo com o que é novo e o seu horror ao que é típico, porque deriva do real, em favor do raro, do singular, do que se não repete, Quanto aos partidários do futuro, que não veem porque “eternizar o transitório”, procuram dar voz à nova verdade que se eleva, luminosa, sobre as ruínas do passado.

Nelson Werneck Sodré destrói fantasmas, denuncia o conluio de forças sociais que tenta corromper, envilecer e emudecer a obra de arte como expressão da realidade e põe nos devidos termos, nas suas implicações atuais e futuras, o ofício de escritor, no seu respeito à verdade que, qualquer que seja, “não pode deixar de ser” revolucionária, E o seu livro, pela segurança e propriedade da argumentação, constitui um bom exemplo de a que alturas pode elevar-se a dignidade desse ofício.

Edison Carneiro

Exemplar nº 0630.

Outros livros deste autor