Levantado do Chão

Levantado do Chão
“Levantado do Chão fala de trabalhadores. Aprendamos um pouco, isso e resto, o próprio orgulho também, com aqueles que do chão se levantaram e a ele não tornam, porque do chio só devemos querer o alimento e aceitar a sepultura, nunca a resignação.”
Eis como José Saramago concluiu as palavras proferidas por ocasião da entrega do “Prêmio Cidade de Lisboa – 1981”, atribuído a este seu romance.
O livro é a narrativa da vida de uma família de trabalhadores rurais (os Mau-Tempo) da região do Alentejo, no sul de Portugal, em cujos limites se passa o romance, desde o começo do século até logo após o 25 de Abril. Trata-se de uma denúncia vigorosa da exploração, do desemprego e da miséria e, ao mesmo tempo, da tomada de consciência política por parte do trabalhador rural: o aprendizado da luta pelo direito ao trabalho, pelas oito horas de jornada e pela posse útil da terra.
Pontuado por acontecimentos históricos de três quartos de século, este romance consegue tecer um painel da burguesia fundiária, à medida que vai compondo a “biografia” dos Mau-Tempo, e da própria história de Portugal no século XX.
Vale dizer que o título do romance se relaciona com a última página do texto, com o “dia levantado e principal”, ocorrido após um percurso de quase três quartos de século. O romance acompanha esse processo de transformação social, que se reflete na própria técnica de composição do enredo: narrador e personagens, que de início aparecem como meros repetidores passivos e submissos de discursos alheios, vão pouco a pouco assumindo a própria linguagem como discurso, como diálogo, realizando destarte a escrita de pessoas que aprenderam a ler em si mesmas e também nos outros, ou seja, que adquiram o direito e o status de narradores.
Não se esgota aí, no entanto, a riqueza e a complexidade do romance. Levantado do Chão, além de ser uma saga da vida alentejana, é uma obra que inova e renova a escrita, a linguagem e a estrutura narrativa e que, por isso, tem sido comparada por alguns a textos magnos da ficção latino-americana, de Guimarães Rosa ao colombiano Gabriel Garcia Márquez. O que não quer dizer que José Saramago renegue, muito pelo contrário, as suas mais autênticas raízes lusitanas, indo buscar inspiração no que de mais positivo a literatura portuguesa tem produzido ao longo dos séculos. E Saramago vai mais além: retoma e efetiva experiências levadas a cabo por sucessivas gerações de poetas e prosadores portugueses, aliando em Levantado do Chão um certo sabor peculiar a linguagem e sensibilidade clássicas, a uma reelaboração de certos estratos da linguagem coloquial e regional.
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