Facundo

Ao ler este livro, o leitor saberá que se encontra diante de uma obra escrita em 1845, publicada em fascículos de jornal, e destinada confessadamente pelo autor – Domingo Faustino Sarmiento, político liberal e faturo presidente da Argentina – a derrubar do poder 0 “tirano” Juan Manuel de Rosas.
Facundo – obra clássica da literatura hispano-americana e do Romantismo argentino – não é um romance, nem uma biografia, nem uma reportagem, nem um ensaio, mas tem de tudo isso um pouco. É um labiríntico espelho no qual Sarmiento tratou de refletir sua época; e em cujo estilhaçamento aprisiona o leitor. Seu pretexto é contar a vida do caudilho Juan Facundo Quiroga, cuja atuação pública foi relativamente breve – de 1820 a 1845 -, mas coincidiu com um dos mais densos e complexos períodos da história argentina etapa fundamental para a configuração do país, porque caracterizado pela luta sem trégua entre unitários e federais, entre cidade e campanha, entre doutores e caudilhos – que Sarmiento consagrou na oposição entre civilização e barbárie.
Esta tradução, a primeira que se faz para o português, depois de 150 anos da publicação da obra, pretende oferecer ao leitor um Facundo fiel à imaginação e ao sonho de Sarmiento. Aparece em edição
crítica cujo objetivo é ajudar a decifrar e interpretar esse Facundo, para que ele assome, agora, tão velho como sempre mas tão novo como nunca, a nos dizer até como somos nós.
O leitor saberá com certeza recompor na quimera de Facundo os estilhaços do multifacetado espelho de Sarmiento. E enfim nós, os brasileiros, que sabemos pouco de nós mesmos e nada dos outros, talvez tenhamos a oportunidade de encontrar na recomposição desse palpitante e polêmico espelho a nossa própria cara; ou de fazer uma boa e profunda reflexão sobre ela.
Aldyr G. Schlee
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