A Formação da Classe Operária Inglesa – Vol. 1

Certa vez, em uma entrevista nos Estados Unidos, perguntaram a E. P. Thompson qual sua opinião sobre a historiografia inglesa. Ele respondeu mais ou menos assim: “creio que grande parte da historiografia, principalmente na Inglaterra, considerou a sociedade do ponto de vista das expectativas e da autoimagem da classe dominante: a propaganda dos vencedores. Por isso, eu creio que recuperar uma história alternativa supõe quase sempre polemizar com a ideologia dominante.”
Eu acredito que esta afirmação ainda espanta os espíritos que velam pela historiografia brasileira. Mesmo porque A formação da classe operária inglesa não é o resultado de nenhuma tese de doutorado. Segundo o próprio autor, “não foi um livro escrito para um público acadêmico. Meu trabalho durante muitos anos foi o de professor de adultos em aulas para trabalhadores e sindicalistas. Além desse público eu tinha em mente as esquerdas velhas e novas e o movimento operário.”
E. P. Thompson, esse historiador irreverente, participou com Eric J. Hobsbawm e Cristopher Hill do grupo de historiadores do Partido Comunista Britânico, militou após a 2ª Guerra no movimento popular inglês, ajudou a construir ferrovias na Iugoslávia, abandonou o partido em 1956 por não concordar com suas posições políticas e ideológicas, ingressou na Universidade na década de 60 e hoje é um dos mais atuantes personagens do movimento anti-nuclear da Europa.
Toda esta trajetória fez de E. P. Thompson um historiador comprometido com as causas populares e um crítico vigoroso da ideologia dominante, sem perder um minuto sequer seu humor e sua ironia. Recentemente quando eu pretendia publicar um livro com seus artigos mais importantes da década de 70, escrevi-lhe várias cartas pedindo uma revisão final dos textos. Sua última resposta, muito amável e muito irônica, foi desconcertante: “eu não consigo revisar meus textos, estou bastante afastado da atividade de historiador. Dedico todo o meu tempo e escritos à causa antinuclear. Acredito que se Ronald Reagan me der um pouco de paz, eu consiga voltar à minha mesa de trabalho e terminar a revisão dos artigos que você me pediu.”
A formação da classe operária inglesa não polemiza apenas com a propaganda dos vencedores, critica também as concepções marxistas sobre a Classe Operária que a transformaram no resultado da equação energia vapor + sistema industrial, num mero fator de produção. Isto me faz lembrar a frase solitária de Charles Chaplin: “Não sois máquina! Homens é que sois!” Este livro é a história de uma experiência e de uma cultura popular.
Edgar Salvadori de Decca
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