Contraêxodo (ou, quando deus arranca os dentes…)

Contraêxodo (ou, quando deus arranca os dentes…)

Cristiano Bernardes


BERNARDES, Cristiano
Categoria: Literatura Geral
Temáticas:
Prateleira:
Editora: Fundação Cultural do Estado do Pará
Cidade: Belém
Formato: Brochura
Edição:
Nº de páginas: 156
Idioma: Português
Ano: 2016
ISBN 13: 9788599870631

Contraêxodo (ou quando deus arranca os dentes…), de Cristiano Bernardes, propõe para dentro o deserto e a travessia. Para dentro de uma cidade que se mostra pelo avesso e para dentro do narrador, que a todo tempo está atravessado de reflexões, dúvidas e caminhos.

Se leio bem e se essa for uma boa síntese do romance, o livro de estreia do autor chega em boa companhia, para citar os parentes próximos: Simões Lopes Neto, Guimarães Rosa, João Antônio e Luiz Sérgio Metz. Companhia essa que pode ser definida como aqueles que procuram pôr a mover-se todo o aparato narrativo – matéria, narrador e linguagem, reciprocamente implicados –, bem como aqueles que entendem o “fora”, como o desdobramento do “dentro”, recusando o caminho intimista da representação de mundo.

“Quando deus arranca os dentes”, subtítulo do romance, consiste em metáfora para quando perdemos as condições de enfrentar certos problemas, quando somos assaltados por uma reviravolta, quando somos atropelados por um destino imprevisto; ao que se pode complementar, conforme se diz a páginas tantas, “esgarça a garganta”, ou seja, deus nos provê condições de resistir ainda mais, num desfecho de dito que parece votar num “tudo se ajeita com o tempo”, mas que não esconde a violência do mal e de seu remédio.

O processo de descobrimento de si, da cidade, da linguagem e do que for – este arrancar de dentes e esgarçar de gargantas –, quando levado de maneira vital, quero dizer, sem o receio de autopreservação em qualquer sentido, é violento, traumático, brusco, mesmo que passe, como o leitor verá, por momentos de alumbramento, de poesia, de intimidade, de comunhão. A partida, o êxodo, quando levado a cabo de fato, e não é somente uma falsa partida, um jogo de cena, desaloja aquele que parte, lança-o no abismo sem retorno do outro, do conhecimento do outro, do assombro. Talvez fosse possível sintetizar o romance desta forma: trata-se basicamente de alguém que decidiu se mover para encontrar o outro, com todas as descobertas e angústias que isso acarreta. Pode não parecer, mas raramente nos submetemos a essa condição.

Guto Leite

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