Língua & Liberdade:

o gigolô das palavras: por uma nova concepção da língua materna

Celso Pedro Luft


LUFT, Celso Pedro
Coleção:
Categoria: Letras
Prateleira:
Editora: L&PM
Cidade: Porto Alegre
Formato: Brochura, Livro de Bolso
Edição:
Nº de páginas: 111
Idioma: Português
Ano: 1985
ISBN 10: 8525400297

Muitos estranharão que um professor de Português, autor de gramáticas e manuais de ortografia, dicionarista e velho pesquisador apaixonado de problemas de Língua, escreva “contra” a Gramática em sala de aula.

Primeiramente, o que é gramática? Se fizermos essa pergunta a pessoas não especializadas, ainda que esclarecidas e cultas, quase todas responderão: “É um livro onde se aprende a escrever certo”. Ou: “São regras que ensinam a falar e escrever corretamente”.

Na verdade, os livros que chamamos gramáticas são meras tentativas de registro e explicação de parte ínfima das regras contidas na autêntica GRAMÁTICA, a vital, verdadeira: conjunto de regras que sustentam o sistema de qualquer língua, com ela nascem, evoluem e morrem. Ninguém pode ser “contra” a verdadeira gramática: ela é imanente às línguas. Uma língua é um duplo sistema: sistema de sinais (vocábulos, expressões, etc.) e sistema de regras da combinação desses sinais. Ao segundo desses sistemas é que chamamos de gramática. Não há língua sem gramática. Amar uma língua é amar sua gramática.

O que me preocupa profundamente é a maneira de se ensinar a língua materna, as noções falsas de língua e gramática, a obsessão gramaticalista, a distorcida visão de que ensinar uma língua seja ensinar a escrever “certo”, o esquecimento a que se relega a prática da língua , e, mais que tudo: a postura opressora e repressiva, alienada e alienante desse ensino, como em geral de todo o nosso ensino em qualquer nível e disciplina.

As detestadas “aulas de Português”, o desânimo dos professores dessa matéria (que deveria ser a preferida, pois lida com nosso instrumento de expressão mais pessoal) ; o fracasso desse ensino, comprovado em concursos, em textos falados e escritos de nossos diplomados universitários ; tudo isso demonstra as deficiências e má orientação de nosso ensino de língua materna.

Penso ser urgentíssimo promover uma mudança radical em nossas “aulas de Português”, ou como quer que as chamem: passando de uma postura normativa, purista e alienada, à visão do aluno como alguém que JÁ SABE a sua língua pois a maneja com naturalidade muito antes de ir à escola, mas precisa apenas LIBERAR mais suas capacidades nesse campo, aprender a ler e escrever, ser exposto a excelentes modelos de língua escrita e oral, e fazer tudo isso com prazer e segurança, sem medo.

Uma prática sem medo, num ensino sem opressão: no mais íntimo terreno da vida humana, que é o da linguagem, onde estruturamos o mundo em nosso interior e nos ligamos a ele, isso se faz mais que necessário, é vital. Precisamos desenvolver nos alunos o espírito crítico, tão temido por um ensino repressor, mas imprescindível para que possam discernir entre linguagem boa e má, falada ou escrita.

Urge acabar com a figura do professor como “aquele que sabe”, e do aluno como “aquele que não sabe”, partindo para um trabalho de crescimento em conjunto, de pesquisas e descobertas de ambos os lados. Não podemos persistir num ensino que gera, como produto final, afirmações tolas que se ouvem até de pessoas cultas, como: “Português é a língua mais difícil do mundo”, “não sei Português”, ou “neste país todo mundo fala errado”.

Dirigido contra um ensino gramaticalista da língua materna, é possível que este livrinho choque a muitos. Quanto a mim, espero que promova debates, estudos e pesquisas em busca de reformulações, por um ensino que faça o aluno desenvolver-se, não encolher convencido de que nada sabe. Talvez assim se obtenha, lenta e laboriosamente, a formação de cidadãos lúcidos e livres. Senhores de sua linguagem.

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